terça-feira, 1 de novembro de 2011

História da África

IMPRESSÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO E ENSINO DE HISTÓRIA DA ÁFRICA NA EXPERÊNCIA EDUCACIONAL BRASILEIRA¹
Agnaldo dos Santos Silva² (FSLF)
Professor orientador: Fernando Aguiar

Introdução

O professor, é antes de tudo um forte. A célebre frase do escritor Euclides da Cunha, referindo-se ao sertanejo, aplica-se com perfeição ao professor que atua nas séries iniciais. As dificuldades encontradas por estes profissionais no dia a dia, vão além dos míseros salários, da falta de estrutura nas escolas e se estendem a árdua tarefa de “recontar” a nossa História para os jovens, uma vez que esta se encontra em constante transformação e muitas vezes é registrada para atender interesses políticos, ideológicos e econômicos.

O propósito deste ensaio é compreender o processo de construção da historiografia africana, destacando os fatores político, econômico e ideológico, construídos pelo neocolonialismo exacerbado, pregado pelas potências europeias e americanas nas primeiras décadas do século XX.

Desenvolvimento

Acredito que a História da presença e influência dos negros no Brasil ainda está mal contada, e nós professores precisamos encontrar os subsídios teóricos para “conhecer”, reconhecer e recontar essas histórias para os nossos alunos.

Vejamos o que diz o professor Henrique Cunha Jr:

Quanto aos povos asiáticos e europeus as platéias imaginam, castelos, guerreiros e contextos históricos diversos. Quanto à História Africana só imaginam selva, selva, selva, deserto, deserto e tribos selvagens perdidas nas selvas. (…) O cotidiano brasileiro é povoado de símbolos de negros selvagens e escravos amarrados, que processam e administram o escravismo mental e realizam a tarefa de feitores invisíveis a chicotear a menor rebeldia o imaginar diferente. (CUNHA JÚNIOR, 1991)

O comentário do professor Henrique Cunha Jr (UFC), revela a visão distorcida que os brasileiros tem dos negros africanos, que foi e ainda é perpetuada nas escolas, reforçada inclusive por alguns livros didáticos. É por aí que começa o desafio do professor das séries iniciais em sala de aula.

Para complementar o raciocínio acerca da desconstrução da historiografia africana, devemos destacar a visão de Friedrich Hegel (Filosofia da História), na qual comparou o negro africano com um ser inferior, desprovido da capacidade de se organizar politicamente e incapaz de se se tornar civilizado.

Encontramos, [...] aqui o homem em seu estado bruto. Tal é o homem na África. Porquanto o homem aparece com homem, põe-se em oposição à natureza, encontra-se no primeiro estágio, dominado pela paixão, pelo orgulho e pela pobreza; é um homem estúpido. No estado de selvageria achamos o africano, enquanto podemos observá-lo e assim tem permanecido.. (HEGEL, 1928)

Baseando-se nesse fragmento, percebe-se que a historiografia eurocêntrica procurou negar a condição dos negros (ágrafos) de serem portadores de história, princípio perpetuado até a década de 1960.

Em se tratando das ações imperialistas implementadas pela França e Portugal por exemplo, durante o processo de colonização da África, nota-se que os povos africanos foram submetidos a um conjunto de políticas que beneficiavam unicamente à expansão do capitalismo. Percebe-se que uma elite negra e intelectualizada esteve a serviço do Estado europeu para construir uma visão distorcida da África.

Mesmo assim, no contexto do pré e pós II Guerra Mundial foi marcado pela ação alguns negros politizados, os quais foram incumbidos de criar uma política anticolonialista que ficou caracterizada como a “invenção da África”. Muitos estudiosos criticaram as ações dos libertários da África por não refletir os reais interesses da população africana, a exemplo do Movimento Negritude, idealizado por negros francófonos (destaque para Aimé Césaire). Outro movimento criado fora da África que buscou a união de todos os povos foi o pan-africanismo.

Ao contrário do que muitos pensam, os africanos também reagiram às políticas colonialistas ao ponto de provocarem ações de reconhecimento e afirmação do negro na África. Na tentativa de reduzir a influência eurocêntrica na África, historiadores nativos buscam na oralidade e na ancestralidade a saída para construir a história africana, chegando inclusive a negar a interferência do tempo do capital e se baseando no tempo mítico, no qual a vida é a base da existência humana.

Considerações Finais

Após analisar o texto A Construção da África: uma reflexão sobre origem e identidade no continente, e acompanhar o debate em sala de aula, entendo que o grande gargalo, o qual os professores tem que superar é o de rever a proposta curricular, com projetos que envolvam toda comunidade escolar para discutir as questões étnicos raciais, com ações voltadas para o reconhecimento da história dos africanos, que se funde à História do Brasil. Para isso, o Estado precisa rever as políticas públicas voltadas para a educação, dando destaque para a preparação dos profissionais que devem levar esse assunto para o chão da escola.

O objetivo é minimizar a influência eurocêntrica nos processos de formação acadêmica. Dessa forma, evitamos a espetacularização da Lei 10.639, estimulada por uma elite negra, que “pensa” os anseios das comunidades afro-descendentes no Brasil. Do contrário, estamos fadados a manutenção do racismo e da negação da história do negro, camuflado nos diversos setores que compõem a infra-estrutura social, inclusive na educação.

Bibliográficas Consultadas

ALVES, Roberta de Souza. Ensino de história e cultura afro-brasileira e africana: da lei ao cotidiano escolar/ Unesp-Bauru, 2007. 74p.

CUNHA JR, Henrique. África e Diáspora Africana - Mimeógrafado. Curso sobre cidadania e relações raciais. ABREVIDA - Prefeitura de São Paulo - 1991.

HEGEL, George W. F. Filosofia de la historia universal. Madri: Revista de Occidente, 1928, t. 1.
PINTO, Simone Martins Rodrigues. A Construção da África: uma reflexão sobre origem e identidade no continente. Revista Eletrônica Acolhendo a Alfabetização nos países de Língua Portugesa: São Paulo, 2008.

¹ Ensaio apresentado como requisito para obtenção de nota no Curso de Especialização em Ensino de História: novas abordagens da Faculdade São Luis de França sob a orientação do profº Fernando Aguiar.

² Agnaldo dos Santos Silva, é graduado em História (Faculdade de Formação de Professores de Penedo/AL), pós graduando em Ensino de História: novas abordagens (Faculdade São Luis de França – Aracaju/SE), professor concursado da rede pública municipal de ensino de Pirambu desde 1999, cordelista e ativista cultural.

Aracaju-SE - Outubro de 2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O que é assédio moral?

Assédio moral ou violência moral no trabalho não é um fenômeno novo. Pode-se dizer que ele é tão antigo quanto o trabalho.  

A novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude e banalização do fenômeno e na abordagem que tenta estabelecer o nexo-causal com a organização do trabalho e tratá-lo como não inerente ao trabalho. A reflexão e o debate sobre o tema são recentes no Brasil, tendo ganhado força após a divulgação da pesquisa brasileira realizada por Dra. Margarida Barreto. Tema da sua dissertação de Mestrado em Psicologia Social, foi defendida em 22 de maio de 2000 na PUC/ SP, sob o título "Uma jornada de humilhações". 

A primeira matéria sobre a pesquisa brasileira saiu na Folha de São Paulo, no dia 25 de novembro de 2000, na coluna de Mônica Bérgamo. Desde então o tema tem tido presença constante nos jornais, revistas, rádio e televisão, em todo país. O assunto vem sendo discutido amplamente pela sociedade, em particular no movimento sindical e no âmbito do legislativo. 

Em agosto do mesmo ano, foi publicado no Brasil o livro de Marie France Hirigoyen "Harcèlement Moral: la violence perverse au quotidien". O livro foi traduzido pela Editora Bertrand Brasil, com o título Assédio moral: a violência perversa no cotidiano. 

Atualmente existem mais de 80 projetos de lei em diferentes municípios do país. Vários projetos já foram aprovados e, entre eles, destacamos: São Paulo, Natal, Guarulhos, Iracemápolis, Bauru, Jaboticabal, Cascavel, Sidrolândia, Reserva do Iguaçu, Guararema, Campinas, entre outros. No âmbito estadual, o Rio de Janeiro, que, desde maio de 2002, condena esta prática. Existem projetos em tramitação nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Bahia, entre outros. No âmbito federal, há propostas de alteração do Código Penal e outros projetos de lei. 

O que é humilhação? 

Conceito: É um sentimento de ser ofendido/a, menosprezado/a, rebaixado/a, inferiorizado/a, submetido/a, vexado/a, constrangido/a e ultrajado/a pelo outro/a. É sentir-se um ninguém, sem valor, inútil. Magoado/a, revoltado/a, perturbado/a, mortificado/a, traído/a, envergonhado/a, indignado/a e com raiva. A humilhação causa dor, tristeza e sofrimento. 

E o que é assédio moral no trabalho? 

É a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego. 

Caracteriza-se pela degradação deliberada das condições de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, freqüentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o ’pacto da tolerância e do silêncio’ no coletivo, enquanto a vitima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, ’perdendo’ sua auto-estima. 

Em resumo: um ato isolado de humilhação não é assédio moral. Este, pressupõe: 

  1. repetição sistemática 

  2. intencionalidade (forçar o outro a abrir mão do emprego) 

  3. direcionalidade (uma pessoa do grupo é escolhida como bode expiatório) 

  4. temporalidade (durante a jornada, por dias e meses) 

  5. degradação deliberada das condições de trabalho 

Entretanto, quer seja um ato ou a repetição deste ato, devemos combater firmemente por constituir uma violência psicológica, causando danos à saúde física e mental, não somente daquele que é excluído, mas de todo o coletivo que testemunha esses atos. 

O desabrochar do individualismo reafirma o perfil do ’novo’ trabalhador: ’autônomo, flexível’, capaz, competitivo, criativo, agressivo, qualificado e empregável. Estas habilidades o qualificam para a demanda do mercado que procura a excelência e saúde perfeita. Estar ’apto’ significa responsabilizar os trabalhadores pela formação/qualificação e culpabilizá-los pelo desemprego, aumento da pobreza urbana e miséria, desfocando a realidade e impondo aos trabalhadores um sofrimento perverso. 

A humilhação repetitiva e de longa duração interfere na vida do trabalhador e trabalhadora de modo direto, comprometendo sua identidade, dignidade e relações afetivas e sociais, ocasionando graves danos à saúde física e mental*, que podem evoluir para a incapacidade laborativa, desemprego ou mesmo a morte, constituindo um risco invisível, porém concreto, nas relações e condições de trabalho. 

A violência moral no trabalho constitui um fenômeno internacional segundo levantamento recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) com diversos paises desenvolvidos. A pesquisa aponta para distúrbios da saúde mental relacionado com as condições de trabalho em países como Finlândia, Alemanha, Reino Unido, Polônia e Estados Unidos. As perspectivas são sombrias para as duas próximas décadas, pois segundo a OIT e Organização Mundial da Saúde, estas serão as décadas do ’mal estar na globalização", onde predominará depressões, angustias e outros danos psíquicos, relacionados com as novas políticas de gestão na organização de trabalho e que estão vinculadas as políticas neoliberais. 

(*) ver texto da OIT sobre o assunto no link: http://www.ilo.org/public/spanish/bureau/inf/pr/2000/37.htm 

Fonte: BARRETO, M. Uma jornada de humilhações. São Paulo: Fapesp; PUC, 2000.

    sábado, 20 de agosto de 2011

    Lendas de Pirambu

     
    karinamendonca.blogspot.com

    Literatura de Cordel
    Autor: Agnaldo Cordelista - ano 2005

    Era uma vez uma cobra, um peixe e uma donzela

    O poeta se inspira
    Na sua realidade
    Escreve sobre os amores
    Da roça até a cidade
    Traça o mundo em poesia
    Vive ou não a fantasia
    Primando a sinceridade
    ***
    Vou rimar alguns causos
    Repassados com destreza
    Por nossos familiares
    Com alto teor de certeza
    Que guardamos na memória
    Pra registrar na história
    Os segredos da natureza
    ***
    Certa vez eu pernoitava
    Na casa do tio Invenção
    Onde sempre à noitinha
    Parte da população
    Sentavam ali todo dia
    Para ver quem respondia
    A última adivinhação
    ***
    E no prosseguir da prosa
    As histórias de Trancoso
    Deixavam a gurizada
    Com o ouvido cuidadoso
    Pra entender a fantasia
    Que garantia a freguesia
    Do velho Mané Gostoso
    ***
    Diziam: Era uma vez...
    Pra iniciar comentário
    Sobre fantásticas estórias
    Do nosso conjunto lendário
    As fábulas de Pirambu
    Contadas por seu Nambu
    Que perdia até o horário
    ***
    No caminho das Trairas
    Perto do Camurupim
    Na lagoa das Titaras
    Tem um segredo sem fim
    Lá tem uma cobra de crista
    Que parece ser surfista
    Ao deslizar no capim
    ***
    A inquilina perpétua
    É exigente na refeição
    Vez ou outra um fazendeiro
    Diz que somem criação (ovelha)
    E se der uma de carrasco
    Ele pode virar churrasco
    E deixar viúva a Conceição
    ***
    E logo mais adiante
    Indo para Alagamar
    Na lagoa do Sangradouro
    Banho, não vou tomar
    Bem dizia seu Severo
    Que o tal do peixe Mero
    Foi expulso lá do mar
    ***
    Ir pescar no Sangrador
    Ou até mesmo se banhar
    É um risco, pois o Mero
    Já vem te abocanhar
    Com sua boca gigante
    E seus olhos de brilhante
    Quer em lanche te ganhar
    ***
    Na rima tem mais lagoa
    Até parece peripécia
    É a imaginação do povo
    Legítima, sem controvérsia
    Na Restinga tem uma crôa
    Ao lado fica a lagoa
    E o morro da Lucrecia
    ***
    Contava minha bisa...
    Dizia sinhá Mafalda
    Que uma linda jovem
    Por estar apaixonada
    E não ser correspondida
    Pelo anjo de sua vida
    Preferiu morrer afogada
    ***
    Nas noites de lua cheia
    Se ouve uma seqüência
    De chororô e gemidos
    Que aumentam a freqüência
    Se no morro for andando
    Vê Lucrécia lastimando
    O pagar da penitência
    ***
    E no exibir da fantasia
    Vamos viver a realidade
    Preservar a hidrografia
    Proteger a biodiversidade
    Pra garantir a essência
    Da cultura, com decência
    Rumo à prosperidade
    ***
    Sobre o surgir de Pirambu
    Farei uma observação
    Do Povoado Porto Grande
    Parte da população
    Pra essa terra se mudaram
    E com outros organizaram
    A sua transformação
    ***
    Alguns barracos de palha
    Outros de barro, tapado
    Pirambu com suas praias
    Era um privilegiado
    Já despontava o turismo
    Destaque pro extrativismo
    E forte para o pescado
    ***
    Esse é meu Pirambu!
    Com seus milhares de habitantes
    Nome de peixe famoso
    De ilha chamava-o antes
    Vive da pesca, agricultura
    Tem riqueza na cultura
    E sofre mudanças constantes
    ***
    Na década de quarenta
    Pirambu já arrancava
    Pra alcançar a liberdade
    O povo se organizava
    Formou-se uma comissão
    Pra desmembrar da missão¹
    A vila que prosperava
    ***
    No ano sessenta e três
    Pirambu foi emancipado
    Aos vinte e seis de novembro
    Sob o apoio do Estado
    Mas só em oito de agosto
    Após dois anos de desgosto
    O município foi instalado
    ***
    A lei um, dois, três, quatro
    Foi tão logo censurada
    Pelo golpe militar
    E quem estava na empreitada
    O exílio foi a punição
    Uma vergonha para a nação
    Ver a democracia manchada
    ***
    As mudanças aconteceram
    Veio a prosperidade
    Por isso Pirambuenses
    Defendam nossa cidade
    Pra que nessa conjuntura
    A nossa rica cultura
    Não fique só na saudade

    ¹Cidade de Japaratuba

    Homenagem ao saudoso tio Invenção - contador de estórias sobre Pirambu